Nunca foi tão fácil e rápido jogar pedras no telhado do vizinho.

Preparar estratégias pensando na nossa capacidade de combate e de resposta inclui, além de formar nossas defesas com base nas informações existentes: não criar polêmicas desnecessárias, não ficar calados, mas não gerar informações novas que não possam ser sustentadas e não usar de terceiros para dar informações institucionais. O risco que corremos não é sempre o mesmo. O apedrejamento pode ser merecido ou imerecido; justo ou injusto; amador ou profissional; massivo ou tímido; não existe fórmula – a única certeza é que o que vem são pedras mesmo, de verdade. Nesse sentido, as ferramentas, inclusive as jurídicas, funcionam somente como o muro que recebe as pedras, mas nunca substituirão as pessoas que pensam e montam a negociação com os adversários.

Alguns exemplos recentes falam por si só:

Dafra – Você por cima

Abril: Dafra – você por cima

Maio: Dafra – você por cima da merda

Resposta da Dafra: usou a tática jurídica e tirou os filmes do ar por infringirem a lei de direitos autorais.

Resultado: os vídeos continuam lá e a campanha continua aumentando. Só o site viralvideochart.com conta mais de 15 cópias e cerca de 250.000 exibições.

Lição: a mesma do vídeo da Cicarelli – era melhor não ter feito nada. Tirar os vídeos do ar ao invés de oferecer uma resposta honesta às críticas só aguça a curiosidade do usuário, além de criar um “desafio” informal pra que o vídeo se reproduza cada vez mais. Se a Dafra tivesse dado uma resposta técnica, diretamente ao usuário inicial, e tirado seu time de campo, a polêmica seria muito menor. Resta saber se ela viu quando a polêmica começou ou se só foi perceber um mês depois. A Dafra converteu o público do youtube em seu inimigo.

MPM – Logomarca de São Paulo 2014

31 de maio: MPM Propaganda – A logomarca de São Paulo na Copa 2014

1º de junho: Mario Amaya: Deixem os logotipos para quem sabe desenhá-los

1º de junho: Carlos Merigo: O temível logo de São Paulo, cidade sede da Copa de 2014

2 de junho: Copa 2014 @ SP REMIX

Resposta da MPM: Até agora nenhuma, exceto uma declaração de um dos criadores, antes da polêmica, que só aumentou a ira dos comentaristas. Alguns perfis fake foram criados para defender as idéias da MPM, mas como de praxe, foram severamente reprimidos pelos comentários dos demais.

Resultado: O public-bashing continua depois de uma semana só vai morrer quando um fato novo tomar o lugar deste ou quando os formadores de opinião se cansarem.

Lição: Todo cuidado é pouco quando se trata de paixões nacionais – as polêmicas são inevitáveis. Mas quando as críticas chegam de gente “de peso” (como o Mario Amaya) e/ou de projeção (como o Merigo), designers e publicitários respeitados e formadores de opinião, convém não ignorar. Se a MPM tivesse abertamente respondido às críticas, defendendo sua criação ou reconhecendo seus erros, a polêmica teria esfriado no começo da semana passada. O que alimentou os leões foi justamente a falta de um posicionamento claro por parte da agência. Ainda tem gente esperando que ela volte atrás e diga que foi uma pegadinha. O rastro desse episódio é curto, atinge só a comunidade dos “antenados” em publicidade, mas em se tratando de uma MPM, ele não é nada desprezível. A MPM ignorou o seu público e vai sair manchada da história.

GM Reinvention

1º de junho: GM Reinvention website | GM Reinvention vídeo

4 de junho: GM Retardation website | GM Retardation vídeo

Resposta da GM: Nenhuma resposta direta, até agora. Mas a alimentação dos canais de informação foi muito reforçada em 2009, com fatos positivos e negativos, preparando a empresa para o inevitável. a GM mantém blogs da alta direção falando sobre o assunto, ao mesmo tempo em que coloca seus assuntos-chave de produtividade, novos desenvolvimentos e inovação. Entre eles estão: Driving Conversations, dedicado ao público europeu, onde o VP de Comunicação para a Europa fez um comentário muito interessante e honesto sobre a relação da Opel com a imprensa e o Fast Lane, dedicado ao público mundial, mas principalmente dos EUA, onde o CEO anunciou a falência, respondeu comentários e participou de ações interativas, além da participação de outros altos-executivos.

Resultado: Aparte os blogs que insistem em chamá-la de Government Motors, o que, por si só, é uma piada pronta, inofensiva e que já está no ar desde 2008, não deve haver muita repercussão além dos fatos – já que a GM responde aos jornalistas e ao público em geral com eles. Chama-la de Goverment Motors é, no mínimo, uma piada legítima e espirituosa – tenho certeza que o próprio Fritz Henderson riu. Uma empresa com bases sólidas de informação online (o FastLane está no ar desde 2005) não vai sucumbir a ataques momentâneos, por mais pesados que sejam, se a estratégia de reinvenção for mesmo uma realidade.

Lição: Ao que parece, a estratégia da GM é a de continuar no seu caminho, divulgando e dando espaço para contribuições não só de jornais mas tb de blogs na sua pagina, apoiando-se no nome que não vai cair assim tão facilmente e na relevância do material que está publicando. Ao optar pela idéia de reinvenção, a empresa está admitindo que errou durante um tempo (o próprio texto do vídeo diz isso muito claramente) e isso dá a ela, junto à grande maioria da opinião na internet, uma carta meio-branca pra usar – todo mundo gosta de gente e de empresas humildes, principalmente quando elas empregam dezenas de milhares de pessoas e podem dizer sem medo que são inovadoras. Importante dizer que admitir os erros e os defeitos em um único vídeo é bom, mas não gera relevância. O conjunto de pessoas certas falando as coisas certas com frequência é que tem feito o acontecimento. A GM transformou os próprios funcionários e todas as suas ações em veiculadores e trata a mídia como adversária, não como inimiga.

Petrobrás Fatos e Dados

2 de junho: Petrobrás lança blog Fatos e Dados

6 de junho: Folha: Petrobrás usa blog para vazar reportagens (para assinantes)

8 de junho: Associação Nacional de Jornais divulga nota de repúdio

Resposta da Petrobrás: Por enquanto, está rebatendo cada um dos artigos negativos no blog, usando ao máximo as armas da imprensa contra ela.

Resultado: Por enquanto, extremamente crítico por parte da imprensa e positivo por parte da opinião pública, o que vai fazer com que as investigações sejam mais firmes e pesadas, mas que o apoio à empresa está mais sólido por parte da população virtual.

Lição: Existem várias cartas a ser jogadas e essa batalha ainda está no começo. A briga deve estender-se para os domínios da publicidade e tomar contornos econômicos inclusive, um tipo de pressão que a Petrobrás pode fazer sobre a imprensa, mas que provavelmente deixará para último caso, porque pode ser percebida como jogo baixo, algo como o que alguns governos costumam jogar. Ao que tudo indica, a empresa está construíndo uma base sólida de informações, um respositório de defesa visando vencer no ringue uma briga política, antes que ela vá ao tapetão. A reação da imprensa tem sido ainda muito tacanha, acuada, mas pode ser que resolvam em breve sair com alguma grande notícia ou furo que desarme a estatal – nenhuma base de informação está imune a um furo bem dado, e todo mundo sabe que a Petrobrás está longe de ser uma ovelhinha no jogo político. Resta saber como ela está se preparando por trás dos panos pra quando esse momento chegar. A Petrobrás transformou a opinião pública em um aliado e produziu um feito: um veículo chapa-branca com mais credibilidade e apoio do que a imprensa supostamente livre.

Experiente que é em questões de imprensa e polêmicas em geral, a Petrobrás sabia que a notícia da CPI ia gerar muita informação, muita necessidade de resposta e muitos, muitos erros, principalmente em se tratando de uma questão que motiva tantos interesses políticos: governo e oposição querem ser donos do pré-sal e de Tupi e ambos estão de olho em 2010, o governo querendo a estatal como um dos seus estandartes de eficiência e a oposição querendo jeitos de dizer que não é bem assim.

Pois bem. A oposição montou a CPI, que o governo não conseguiu evitar, e começa a confusão. A Petrobrás, sabendo onde isso pode dar, criou um blog para responder às questões de jornalistas e colocar integralmente a sua opinião, escapando dos editores. Está em http://petrobrasfatosedados.wordpress.com .

Fatos que me chamaram a atenção:

1. Agilidade. A CPI ainda não foi instalada por complicações políticas entre Lula, Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá, Aloísio Mercadante e outros. Mas a Petrobrás já montou seu esquema de defesa.

2. Volume. O Blog foi lançado em 2 de junho e já tem 21 artigos publicados – uma ótima forma de criar presença e aumentar o seu ranking como fonte de informação. Não necessariamente continuará nesse ritmo, mas está criando presença e credibilidade em forma de volume de informações.

3. Clareza e assinatura. Na área “sobre o blog” e em todas as perguntas de jornalistas a respeito, informa-se que o veículo é conduzido pela equipe de comunicação da Petrobrás e que o objetivo é esclarecer fatos e publicar opiniões não-editadas pelos jornais.

4. Abertura. Os comentários são abertos e moderados com um critério simples: “O critério para publicação é que não tenham conteúdo ofensivo ou desassociado do tema do site.”

5. Atenção ao leitor. Apesar de ser um blog criado com o objetivo de confrontar a imprensa, o leitor comum está sendo atendido, tanto em respostas de comentários como em posts específicos criados a partir da demanda.

6. Respostas. As respostas publicadas no blog não necessariamente trazem todos os fatos ou questões apresentadas nas perguntas, o que dá margem a interpretações. No entanto, somente a estratégia de publicá-las já ganha amplo apoio do público, como se pode ver na grande maioria dos comentários.

7. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O fato de o blog ter sido publicado no WordPress não é mais do que uma iniciativa de separar a discussão do ambiente institucional.

Criar uma base de conteúdos que não esteja diretamente ligada à Agência Petrobrás de Notícias é uma forma de não entupir o noticiário institucional da empresa com informações de “peso” negativo. Ao utilizar uma plataforma acreditada, a empresa se vale da relevância do wordpress e desvia a discussão “pesada” para fora da sua página institucional, onde continua lançando assuntos diversos e de interesse dos leitores não necessariamente interessados na CPI. Já houve uma iniciativa semelhante, em 2008, com o Blog dos 40 anos em Minas, que era hospedado no domínio petrobras.com.br mas separado da área de notícias para não haver confusões.

é um ótimo case para ficarmos de olho nos desenvolvimentos e aprendermos sobre a formulação de estratégias na web para os nossos clientes.

e-mail enviado aos meus professores mais queridos da graduação, em um momento de êxtase profissional. era muito importante falar isso pra eles.

Oi gentes… :)

quis só passar e contar uma novidade e deixar um recado pra vcs… Hoje fui oficialmente convidado a estampar um primeiro selinho no meu passaporte pra academia – e nem é pra de ginástica! Lá eles já desistiram de mim..

Me chamaram para assumir a disciplina de Comunicação Corporativa e Mídias Digitais na pós-graduação em Comunicação Corporativa da Newton Paiva no 2o semestre. Só um módulo de 24h, muito menos trabalho do que o que vocês tiveram pra deixar essa impressão toda em mim, mas já me deixou muito feliz – aí eu vim aqui agradecer por vocês terem me mostrado que ser professor pode ser muito mais do que ficar lá na frente assim, tipo, “ensinando” coisas…

Enfim, não vim fazer discursos, só queria dizer isso e que espero muito um dia chegar a ser pelo menos um pouquinho assim, tipo vcs – importantes pros meus futuros alunos – só pra ter o gostinho mesmo…

A disciplina é só em outubro/novembro e a coordenação foi muito prestativa pra me passar algumas coisas de metodologia e etceteras pra eu não tremer nas bases na frente dos alunos, mas se preparem que até lá vcs vão ter mais trabalho pra me ensinar comofas, ta?

beijos muito agradecidos pra vcs!

ps.: todos os outros tb foram importantes… mas tem os importantes e depois tem vcs, assim, numa categoria à parte… ;)

Estamos vivendo um momento de divisão. Não nos impressionamos por qualquer coisa e já vai longe o tempo em que só as coisas grandes e imponentes nos impressionavam.

Se usarmos da mesma metáfora da web, acho que estamos deixando pra trás a era do “Uau! 1.0″, marcada pelas grandes demonstrações de poder, quando os desfiles de exércitos soviéticos e alemães, os discursos inflamados de políticos influentes, os mega-shows com milhares de espectadores e tudo o mais nos impressionava por suas dimensões no tempo e espaço definidos. Estamos abandonando o mote que abriu a idéia dos jogos olímpicos, na grécia antiga: Citius, Altius, Fortius - ”Mais rápido, mais alto, mais forte”.

Tentei encontrar outro mote, mas os meus parcos conhecimentos de latim e wikipédia não foram suficientes. Não há, ainda, nada que explique a era do “Uau! 2.0″, exceto as impressões causadas não pelo mais rápido, pelo mais alto, ou pelo mais forte, mas sim pelo menos provável, pelo comum, pelo ordinário.

A ciberdemocracia nasceu na era do Uau! 2.0. E Uau! foi justamente a impressão que eu tive durante cada um dos 58min do recém-lançado filme Us Now: A film project about the power of mass collaboration, government and the internet. Lançado gratuitamente via Internet (claro), o questionamento filosófico dos autores é simples: 

In a world in which information is like air, what happens to power?

Mas o questionamento real é outro, expresso em uma linha de texto dentro do filme, que coloca todo o poder atribuído à colaboração em massa em cheque:

So if you can create an encyclopedia with a million people who’ve never met but the quality is just as good as Britannica, what else could you create? (…) we can work togheter in ways that ask a deeper question about the role of government:

can we all govern?

Do orçamento participativo inglês a um time de futebol completamente gerenciado por seus 30.000 torcedores via internet, o filme traz alguns insights pra termos uma noção de como será a nossa vida compartilhada dentro de pouco tempo – e um final que justifica o primeiro parágrafo desse texto. Ao contrário da idéia de carros voadores e naves espaciais de altíssima complexidade, nosso futuro colaborativo será simples. Extremamente simples – e é isso que vai nos deixar impressionados.*

Recomendo muito assistirem: http://watch.usnowfilm.com/subtitled (legendas em inglês disponíveis. Não dou 1 semana pra ter em português tb!)

 

* link muito interessante com uma frase que recolhi nas minhas pesquisas pro artigo que vai ser publicado em breve. adorei poder usá-la aqui, já que lá ela não coube:

“A afirmação pode provocar risos, mas as relações públicas e a comunicação organizacional [e nesse caso também a política governamental] estão cada vez mais próximas do eletrodoméstico, que, felizmente, é a forma mais agradável de tecnologia. O seu design é bonito, sedutor, eficiente, descomplicado; as suas inúmeras funções são acionadas de forma simples e rápida; os manuais tem linguagem acessível, direcionada para o leigo. Tudo nele é concebido para o uso fácil, instantâneo e massivo. Assim são as famílias de liquidificadores, fogões, geladeiras, batedeiras de bolos, televisores, transmissores de imagem e som, entre outras.”  (Paulo Nassar. O uso das novas tecnologias de acesso ao virtual)

semana passada postei aqui aquele vídeo bacana sobre web 2.0

hoje, acabo de ler no caiocesar.cc/blog sobre o mojiti, uma ferramentinha muito legal pra colocar comentários dos próprios usuários nos vídeos postados no youtube… legal né?

veja como ficou (ou como está até agora) o vídeo comentado:

http://mojiti.com/kan/2024/3313

Na última sexta-feira, após uma semana quente falando sobre aquele crime bárbaro ocorrido no Rio de Janeiro, a rádio Band News FM se saiu com uma sacada genial para uma participação maciça e simples dos ouvintes: No começo da manhã, mandou suas redações em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Salvador fazerem uma ronda de carro pelas cidades percorrendo trechos entre 13 e 20km e contando com quantas viaturas da polícia cruzavam no caminho. Enquanto isso, convidava os ouvintes a fazerem a mesma contagem em seus trajetos durante o dia.

O resultado foi no mínimo assustador. Em 74km percorridos pelas redações em 6 das maiores cidades do país foram encontradas nada mais do que 3 viaturas de polícia, uma delas em Belo Horizonte, na região de Venda Nova. Todas as rondas foram feitas pela manhã, entre 7h e 8h e a rádio afirmava que estava recebendo centenas de e-mails e telefonemas de ouvintes, todos relatando a mesma condição de abandono da população pela polícia.

Pois bem. Eu só fiquei sabendo disso quando saí do escritório, às 17h e ouvi no rádio do carro a notícia e todo o tom desolador do jornalista Luiz Megale, sem música de fundo. Gostei da idéia e, já que ia ter um incomum e longo caminho pela frente, resolvi fazer a minha contagem também.

Resultado: durante cerca de 3h e através de 33km percorridos entre as regionais Barreiro, Centro-sul, Nordeste e Pampulha (veja mapa) eu cruzei com nada menos do que:

4 viaturas da Polícia Civil;
6 viaturas da Polícia Militar;
2 viaturas da Guarda Civil Metropolitana; e
2 viaturas da Polícia Rodoviária Federal, totalizando 14 viaturas de polícia, sem contar mais umas 7 ou 8 que estavam estacionadas em frente à delegacia do Terminal JK.

Só me pergunto quais as razões da diferença de contagem entre 8h e 17h…

ps.: o título do post é uma homenagem a um dos primeiros livros que li na vida e do qual provavelmente nunca me esquecerei. Um Cadáver Ouve Rádio, do escritor Marcos Rey, publicado pela Editora Ática na sua imortal “Coleção Vagalume”. Além de Um Cadáver Ouve Rádio, li também outros 10 livros dele na minha adolescência…

<!– –>

sensacional vídeo… mais uma generosa dica que eu pesquei no Radinho de Pilha, uma lista de discussão bacanérrima sobre mídias em geral, especialmente as eletrônicas e a internet.

já aviso antes, este é um post feito em um momento: “será que esse mundo presta”?

Eu devo ter chegado atrasado na discussão. Ainda não vi ninguém comentando a última mega-novidade da indústria brasileira de papéis. Em janeiro de 2007 (eu acho), a International Papel, indústria detentora da marca Chamex e Chamequinho lançou o produto que eu realmente chamaria com aquele maravilhoso slogan: “um novo conceito em blogs”.

Trata-se do “Bloquinho”, convenientemente apresentado com o slogan explicativo “o blog de papel do chamequinho”.

No ultra novo, revolucionário e moderno Bloquinho, as crianças poderão fazer tudo o que faziam em seus cadernos e agendas há centenas de anos: listinhas, recadinhos, carteirinhas, fotos, ilustrações e a lista continua… A grande, enorme, colossal vantagem é de que agora vem tudo num mesmo layout, do mesmo jeito de quem cria um blog e segue sempre com aquele tema padrão do blogger ou do wordpress…

Tudo bem, é uma promoção, mas é uma inversão de conceitos que realmente me assombrou. Trata-se de um produto que existiu primeiro no papel, depois na internet e depois voltou pro papel como se nunca tivesse estado lá. De certa forma, navegando pelo site, me deparei com alguns conceitos utilizados que me preocuparam. Pra mim, frases como:

“Chamequinho é o seu companheiro da escola, seu amigo de papel” ou “Com Chamequinho até o estudo fica mais divertido”

são um atentado à inteligência das nossas crianças. Somando isso ao fato de fingir para elas que aquilo que está sendo lançado é uma coisa nunca vista, sei lá. A princípio, quando vi a propaganda do Bloquinho na TV achei bobinha, inocente. Agora estou começando a achar uma coisa meio maquiavélica, feita para vender a crianças solitárias, moderninhas da moda e de já de cara indispostas com a escola.

Onde isso vai dar? Quem viver, verá… espero pacientemente o tempo me mostrar que eu ando errando essas previsões sombrias.

http://www.chamequinho.com.br/bloquinho/

Hoje à noite, na volta para casa, me peguei pensando em como a gente gosta de forçar a barra das coisas. Me veio, a princípio, como uma característica própria do brasileiro. No entanto, pelo meu total desconhecimento das culturas de outros países, não posso dizer assim que isso seja uma característica única nossa.

Mas se fosse, essa seria uma de que o brasileiro se ufanaria. Aliás, já o faz, mas por outro lado. O brasileiro é o dono do mundialmente famoso “jeitinho”, que uma vez me fez passar vergonha num evento internacional aqui em BH… caso para outro post.

O “forçar a barra” a que me refiro hoje é um pouco mais do que o uso do “jeitinho”. É toda uma categoria de comportamentos que envolvem usar desculpas para se passar por uma identidade que não se tem (ou se é), para ter uma atitude que não assumiria ou simplesmente para fugir da responsabilidade da aplicação do pensamento.

Exemplo nº1 ou: à la folie? pas du tout…

Ouço todos os dias a coluna “seus filhos” da Rosely Sayão na rádio Band News FM. Não por escolha, mas porque ela está na faixa de horário em que eu ouço a rádio (entre 6h30 e 7h35 da manhã, no trajeto casa/trabalho), e a coluna até que é muito boa. E na coluna de hoje ela falava sobre as viagens de comemoração de final do ensino médio e como essas viagens às vezes se tornam grandes pretextos para se “ir à forra”, “sair do normal” e “fazer besteira” com a desculpa de se livrar do “enorme peso” do Ensino Médio. —— Cá entre nós. Pode até ser que os alunos de escolas super-exigentes e de ponta precisem mesmo se despressurizar ao final da sua primeira jornada de 11 anos escolares. Mas será que é esse o caso dos nossos estudantes comuns do Ensino Médio? “Been there, done that”, diria o sábio. Compreendo, mas não concordo. Acho que a cultura poderia ser criada de forma diferente. Por que diabos a farra precisa ter a desculpa da despressurização? Só pra não carregarmos as culpas das maluquices cometidas? Isso, pra mim, é “forçar a barra”.

Exemplo nº2 ou: le malade imaginaire

A mesma Rosely dizia, há alguns dias, sobre o mito das crianças hiperativas. Sobre a diferença daquelas que realmente tem problemas clínicos diagnosticados como “hiperatividade” e aquelas que simplesmente fazem mais do que os que gostam de ficar o dia inteiro na frente da tv, do playstation ou do computador. O que me chamou a atenção nesse assunto era o exemplo da criança que ao ser chamada à atenção por estar fazendo bagunça, dizia: “não posso evitar, eu sou hiperativa”. —— Aprendeu desde cedo a “forçar a barra” para justificar seus atos. E assim acontecem com todas as coisas dessa chamada vida moderna: “não posso evitar, eu sou estressado / anoréxica / hipocondríaco / cleptomaníaco / etc”. Ora, não tapemos o sol com a peneira. Todas essas condições clínicas existem. Mas eu aposto meu salário contra o seu que menos da metade das pessoas que se declaram como tais são realmente portadoras das patologias em si.

Exemplo nº3 ou: la haine

Hoje mesmo, no mesmo ponto de ônibus que eu, estava um rapazinho que não passava dos 17 anos. Indumentária comum a qualquer adolescente e um grande sei-lá-o-que-de-pendurar-coisas no pescoço (parecido com esses cordões de crachás, mas beeem mais largo). Até aí, tudo bem… mas o negócio em volta do pescoço do rapaz tinha a nome de uma banda brasileira (o rappa?) e uma imitação do selinho de mau-comportamento que as bandas americanas adoram mostrar por aí. “Parental Advisory: Explicit Content”. —— Por alguns segundos, me perguntei que diabos aquele selo estadunidense (que pra mim é um grande símbolo de todo o falso-moralismo à là tradição/família/propriedade vivido nos EUA) tava fazendo no cordão de uma banda brasileira. Até que me bateu: se lá ele é usado como um simbolo de transgressão pelas bandas mal-comportadas, infelizmente, é natural que aqui ele seja copiado. Infelizmente porque a cópia simplesmente ignora o fato de que o Brasil não classifica suas músicas entre próprias e impróprias para as faixas etárias. Faz algo muito mais inteligente: deixa isso a cargo das famílias e pessoas com decisão de compra. Mas o brasileiro não. Força a barra pra se parecer com essa imbecilidade importada. Se a moda pega…

Exemplo nº4 ou: le placard

Hoje ainda ouvi no rádio um ótimo programa sobre o mercado publicitário que poderia muito bem ser chamado de “Comercial e Cia”. Mas os produtores quiseram que se chamasse “Comercial e Cia on radio“. Tá. Pra quê mesmo? Antes que me joguem pedras, eu sou o primeiro a defender alguns estrangeirismos que não tem ou simplesmente não precisam de tradução (empowerment, accountability, mouse, fax, marketing, etc), mas qual o objetivo de se trocar o “no rádio” por um pedante “on radio“? Ficar chique? Isso, pra mim, é forçar a barra. Como eu já disse, o programa é ótimo, mas tem um quadro chamado “Advertising Brasil”. Pelas barbas do profeta. Não podia ser “Propaganda Brasil”, “Publicidade Brasil”, “Marketing Brasil”?. —— Os publicitários, tão descolados, podiam passar sem essa, não? Se bem que são eles que criam aquelas aberrações do tipo: “é muuuuuuito fanta” ou “schrubbles” ou “fique bamboochaa”. I rest my case.

Forcei a barra? Talvez… mas é porque o errado sou eu… o BBB7 vem aí…

Hoje à noite, na volta para casa, me peguei pensando em como a gente gosta de forçar a barra das coisas. Me veio, a princípio, como uma característica própria do brasileiro. No entanto, pelo meu total desconhecimento das culturas de outros países, não posso dizer assim que isso seja uma característica única nossa.

Mas se fosse, essa seria uma de que o brasileiro se ufanaria. Aliás, já o faz, mas por outro lado. O brasileiro é o dono do mundialmente famoso “jeitinho”, que uma vez me fez passar vergonha num evento internacional aqui em BH… caso para outro post.

O “forçar a barra” a que me refiro hoje é um pouco mais do que o uso do “jeitinho”. É toda uma categoria de comportamentos que envolvem usar desculpas para se passar por uma identidade que não se tem (ou se é), para ter uma atitude que não assumiria ou simplesmente para fugir da responsabilidade da aplicação do pensamento.

Exemplo nº1 ou: à la folie? pas du tout…

Ouço todos os dias a coluna “seus filhos” da Rosely Sayão na rádio Band News FM. Não por escolha, mas porque ela está na faixa de horário em que eu ouço a rádio (entre 6h30 e 7h35 da manhã, no trajeto casa/trabalho), e a coluna até que é muito boa. E na coluna de hoje ela falava sobre as viagens de comemoração de final do ensino médio e como essas viagens às vezes se tornam grandes pretextos para se “ir à forra”, “sair do normal” e “fazer besteira” com a desculpa de se livrar do “enorme peso” do Ensino Médio. —— Cá entre nós. Pode até ser que os alunos de escolas super-exigentes e de ponta precisem mesmo se despressurizar ao final da sua primeira jornada de 11 anos escolares. Mas será que é esse o caso dos nossos estudantes comuns do Ensino Médio? “Been there, done that”, diria o sábio. Compreendo, mas não concordo. Acho que a cultura poderia ser criada de forma diferente. Por que diabos a farra precisa ter a desculpa da despressurização? Só pra não carregarmos as culpas das maluquices cometidas? Isso, pra mim, é “forçar a barra”.

Exemplo nº2 ou: le malade imaginaire

A mesma Rosely dizia, há alguns dias, sobre o mito das crianças hiperativas. Sobre a diferença daquelas que realmente tem problemas clínicos diagnosticados como “hiperatividade” e aquelas que simplesmente fazem mais do que os que gostam de ficar o dia inteiro na frente da tv, do playstation ou do computador. O que me chamou a atenção nesse assunto era o exemplo da criança que ao ser chamada à atenção por estar fazendo bagunça, dizia: “não posso evitar, eu sou hiperativa”. —— Aprendeu desde cedo a “forçar a barra” para justificar seus atos. E assim acontecem com todas as coisas dessa chamada vida moderna: “não posso evitar, eu sou estressado / anoréxica / hipocondríaco / cleptomaníaco / etc”. Ora, não tapemos o sol com a peneira. Todas essas condições clínicas existem. Mas eu aposto meu salário contra o seu que menos da metade das pessoas que se declaram como tais são realmente portadoras das patologias em si.

Exemplo nº3 ou: la haine

Hoje mesmo, no mesmo ponto de ônibus que eu, estava um rapazinho que não passava dos 17 anos. Indumentária comum a qualquer adolescente e um grande sei-lá-o-que-de-pendurar-coisas no pescoço (parecido com esses cordões de crachás, mas beeem mais largo). Até aí, tudo bem… mas o negócio em volta do pescoço do rapaz tinha a nome de uma banda brasileira (o rappa?) e uma imitação do selinho de mau-comportamento que as bandas americanas adoram mostrar por aí. “Parental Advisory: Explicit Content”. —— Por alguns segundos, me perguntei que diabos aquele selo estadunidense (que pra mim é um grande símbolo de todo o falso-moralismo à là tradição/família/propriedade vivido nos EUA) tava fazendo no cordão de uma banda brasileira. Até que me bateu: se lá ele é usado como um simbolo de transgressão pelas bandas mal-comportadas, infelizmente, é natural que aqui ele seja copiado. Infelizmente porque a cópia simplesmente ignora o fato de que o Brasil não classifica suas músicas entre próprias e impróprias para as faixas etárias. Faz algo muito mais inteligente: deixa isso a cargo das famílias e pessoas com decisão de compra. Mas o brasileiro não. Força a barra pra se parecer com essa imbecilidade importada. Se a moda pega…

Exemplo nº4 ou: le placard

Hoje ainda ouvi no rádio um ótimo programa sobre o mercado publicitário que poderia muito bem ser chamado de “Comercial e Cia”. Mas os produtores quiseram que se chamasse “Comercial e Cia on radio“. Tá. Pra quê mesmo? Antes que me joguem pedras, eu sou o primeiro a defender alguns estrangeirismos que não tem ou simplesmente não precisam de tradução (empowerment, accountability, mouse, fax, marketing, etc), mas qual o objetivo de se trocar o “no rádio” por um pedante “on radio“? Ficar chique? Isso, pra mim, é forçar a barra. Como eu já disse, o programa é ótimo, mas tem um quadro chamado “Advertising Brasil”. Pelas barbas do profeta. Não podia ser “Propaganda Brasil”, “Publicidade Brasil”, “Marketing Brasil”?. —— Os publicitários, tão descolados, podiam passar sem essa, não? Se bem que são eles que criam aquelas aberrações do tipo: “é muuuuuuito fanta” ou “schrubbles” ou “fique bamboochaa”. I rest my case.

Forcei a barra? Talvez… mas é porque o errado sou eu… o BBB7 vem aí…