Nunca foi tão fácil e rápido jogar pedras no telhado do vizinho.

Preparar estratégias pensando na nossa capacidade de combate e de resposta inclui, além de formar nossas defesas com base nas informações existentes: não criar polêmicas desnecessárias, não ficar calados, mas não gerar informações novas que não possam ser sustentadas e não usar de terceiros para dar informações institucionais. O risco que corremos não é sempre o mesmo. O apedrejamento pode ser merecido ou imerecido; justo ou injusto; amador ou profissional; massivo ou tímido; não existe fórmula – a única certeza é que o que vem são pedras mesmo, de verdade. Nesse sentido, as ferramentas, inclusive as jurídicas, funcionam somente como o muro que recebe as pedras, mas nunca substituirão as pessoas que pensam e montam a negociação com os adversários.

Alguns exemplos recentes falam por si só:

Dafra – Você por cima

Abril: Dafra – você por cima

Maio: Dafra – você por cima da merda

Resposta da Dafra: usou a tática jurídica e tirou os filmes do ar por infringirem a lei de direitos autorais.

Resultado: os vídeos continuam lá e a campanha continua aumentando. Só o site viralvideochart.com conta mais de 15 cópias e cerca de 250.000 exibições.

Lição: a mesma do vídeo da Cicarelli – era melhor não ter feito nada. Tirar os vídeos do ar ao invés de oferecer uma resposta honesta às críticas só aguça a curiosidade do usuário, além de criar um “desafio” informal pra que o vídeo se reproduza cada vez mais. Se a Dafra tivesse dado uma resposta técnica, diretamente ao usuário inicial, e tirado seu time de campo, a polêmica seria muito menor. Resta saber se ela viu quando a polêmica começou ou se só foi perceber um mês depois. A Dafra converteu o público do youtube em seu inimigo.

MPM – Logomarca de São Paulo 2014

31 de maio: MPM Propaganda – A logomarca de São Paulo na Copa 2014

1º de junho: Mario Amaya: Deixem os logotipos para quem sabe desenhá-los

1º de junho: Carlos Merigo: O temível logo de São Paulo, cidade sede da Copa de 2014

2 de junho: Copa 2014 @ SP REMIX

Resposta da MPM: Até agora nenhuma, exceto uma declaração de um dos criadores, antes da polêmica, que só aumentou a ira dos comentaristas. Alguns perfis fake foram criados para defender as idéias da MPM, mas como de praxe, foram severamente reprimidos pelos comentários dos demais.

Resultado: O public-bashing continua depois de uma semana só vai morrer quando um fato novo tomar o lugar deste ou quando os formadores de opinião se cansarem.

Lição: Todo cuidado é pouco quando se trata de paixões nacionais – as polêmicas são inevitáveis. Mas quando as críticas chegam de gente “de peso” (como o Mario Amaya) e/ou de projeção (como o Merigo), designers e publicitários respeitados e formadores de opinião, convém não ignorar. Se a MPM tivesse abertamente respondido às críticas, defendendo sua criação ou reconhecendo seus erros, a polêmica teria esfriado no começo da semana passada. O que alimentou os leões foi justamente a falta de um posicionamento claro por parte da agência. Ainda tem gente esperando que ela volte atrás e diga que foi uma pegadinha. O rastro desse episódio é curto, atinge só a comunidade dos “antenados” em publicidade, mas em se tratando de uma MPM, ele não é nada desprezível. A MPM ignorou o seu público e vai sair manchada da história.

GM Reinvention

1º de junho: GM Reinvention website | GM Reinvention vídeo

4 de junho: GM Retardation website | GM Retardation vídeo

Resposta da GM: Nenhuma resposta direta, até agora. Mas a alimentação dos canais de informação foi muito reforçada em 2009, com fatos positivos e negativos, preparando a empresa para o inevitável. a GM mantém blogs da alta direção falando sobre o assunto, ao mesmo tempo em que coloca seus assuntos-chave de produtividade, novos desenvolvimentos e inovação. Entre eles estão: Driving Conversations, dedicado ao público europeu, onde o VP de Comunicação para a Europa fez um comentário muito interessante e honesto sobre a relação da Opel com a imprensa e o Fast Lane, dedicado ao público mundial, mas principalmente dos EUA, onde o CEO anunciou a falência, respondeu comentários e participou de ações interativas, além da participação de outros altos-executivos.

Resultado: Aparte os blogs que insistem em chamá-la de Government Motors, o que, por si só, é uma piada pronta, inofensiva e que já está no ar desde 2008, não deve haver muita repercussão além dos fatos – já que a GM responde aos jornalistas e ao público em geral com eles. Chama-la de Goverment Motors é, no mínimo, uma piada legítima e espirituosa – tenho certeza que o próprio Fritz Henderson riu. Uma empresa com bases sólidas de informação online (o FastLane está no ar desde 2005) não vai sucumbir a ataques momentâneos, por mais pesados que sejam, se a estratégia de reinvenção for mesmo uma realidade.

Lição: Ao que parece, a estratégia da GM é a de continuar no seu caminho, divulgando e dando espaço para contribuições não só de jornais mas tb de blogs na sua pagina, apoiando-se no nome que não vai cair assim tão facilmente e na relevância do material que está publicando. Ao optar pela idéia de reinvenção, a empresa está admitindo que errou durante um tempo (o próprio texto do vídeo diz isso muito claramente) e isso dá a ela, junto à grande maioria da opinião na internet, uma carta meio-branca pra usar – todo mundo gosta de gente e de empresas humildes, principalmente quando elas empregam dezenas de milhares de pessoas e podem dizer sem medo que são inovadoras. Importante dizer que admitir os erros e os defeitos em um único vídeo é bom, mas não gera relevância. O conjunto de pessoas certas falando as coisas certas com frequência é que tem feito o acontecimento. A GM transformou os próprios funcionários e todas as suas ações em veiculadores e trata a mídia como adversária, não como inimiga.

Petrobrás Fatos e Dados

2 de junho: Petrobrás lança blog Fatos e Dados

6 de junho: Folha: Petrobrás usa blog para vazar reportagens (para assinantes)

8 de junho: Associação Nacional de Jornais divulga nota de repúdio

Resposta da Petrobrás: Por enquanto, está rebatendo cada um dos artigos negativos no blog, usando ao máximo as armas da imprensa contra ela.

Resultado: Por enquanto, extremamente crítico por parte da imprensa e positivo por parte da opinião pública, o que vai fazer com que as investigações sejam mais firmes e pesadas, mas que o apoio à empresa está mais sólido por parte da população virtual.

Lição: Existem várias cartas a ser jogadas e essa batalha ainda está no começo. A briga deve estender-se para os domínios da publicidade e tomar contornos econômicos inclusive, um tipo de pressão que a Petrobrás pode fazer sobre a imprensa, mas que provavelmente deixará para último caso, porque pode ser percebida como jogo baixo, algo como o que alguns governos costumam jogar. Ao que tudo indica, a empresa está construíndo uma base sólida de informações, um respositório de defesa visando vencer no ringue uma briga política, antes que ela vá ao tapetão. A reação da imprensa tem sido ainda muito tacanha, acuada, mas pode ser que resolvam em breve sair com alguma grande notícia ou furo que desarme a estatal – nenhuma base de informação está imune a um furo bem dado, e todo mundo sabe que a Petrobrás está longe de ser uma ovelhinha no jogo político. Resta saber como ela está se preparando por trás dos panos pra quando esse momento chegar. A Petrobrás transformou a opinião pública em um aliado e produziu um feito: um veículo chapa-branca com mais credibilidade e apoio do que a imprensa supostamente livre.

Experiente que é em questões de imprensa e polêmicas em geral, a Petrobrás sabia que a notícia da CPI ia gerar muita informação, muita necessidade de resposta e muitos, muitos erros, principalmente em se tratando de uma questão que motiva tantos interesses políticos: governo e oposição querem ser donos do pré-sal e de Tupi e ambos estão de olho em 2010, o governo querendo a estatal como um dos seus estandartes de eficiência e a oposição querendo jeitos de dizer que não é bem assim.

Pois bem. A oposição montou a CPI, que o governo não conseguiu evitar, e começa a confusão. A Petrobrás, sabendo onde isso pode dar, criou um blog para responder às questões de jornalistas e colocar integralmente a sua opinião, escapando dos editores. Está em http://petrobrasfatosedados.wordpress.com .

Fatos que me chamaram a atenção:

1. Agilidade. A CPI ainda não foi instalada por complicações políticas entre Lula, Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá, Aloísio Mercadante e outros. Mas a Petrobrás já montou seu esquema de defesa.

2. Volume. O Blog foi lançado em 2 de junho e já tem 21 artigos publicados – uma ótima forma de criar presença e aumentar o seu ranking como fonte de informação. Não necessariamente continuará nesse ritmo, mas está criando presença e credibilidade em forma de volume de informações.

3. Clareza e assinatura. Na área “sobre o blog” e em todas as perguntas de jornalistas a respeito, informa-se que o veículo é conduzido pela equipe de comunicação da Petrobrás e que o objetivo é esclarecer fatos e publicar opiniões não-editadas pelos jornais.

4. Abertura. Os comentários são abertos e moderados com um critério simples: “O critério para publicação é que não tenham conteúdo ofensivo ou desassociado do tema do site.”

5. Atenção ao leitor. Apesar de ser um blog criado com o objetivo de confrontar a imprensa, o leitor comum está sendo atendido, tanto em respostas de comentários como em posts específicos criados a partir da demanda.

6. Respostas. As respostas publicadas no blog não necessariamente trazem todos os fatos ou questões apresentadas nas perguntas, o que dá margem a interpretações. No entanto, somente a estratégia de publicá-las já ganha amplo apoio do público, como se pode ver na grande maioria dos comentários.

7. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O fato de o blog ter sido publicado no WordPress não é mais do que uma iniciativa de separar a discussão do ambiente institucional.

Criar uma base de conteúdos que não esteja diretamente ligada à Agência Petrobrás de Notícias é uma forma de não entupir o noticiário institucional da empresa com informações de “peso” negativo. Ao utilizar uma plataforma acreditada, a empresa se vale da relevância do wordpress e desvia a discussão “pesada” para fora da sua página institucional, onde continua lançando assuntos diversos e de interesse dos leitores não necessariamente interessados na CPI. Já houve uma iniciativa semelhante, em 2008, com o Blog dos 40 anos em Minas, que era hospedado no domínio petrobras.com.br mas separado da área de notícias para não haver confusões.

é um ótimo case para ficarmos de olho nos desenvolvimentos e aprendermos sobre a formulação de estratégias na web para os nossos clientes.

Estamos vivendo um momento de divisão. Não nos impressionamos por qualquer coisa e já vai longe o tempo em que só as coisas grandes e imponentes nos impressionavam.

Se usarmos da mesma metáfora da web, acho que estamos deixando pra trás a era do “Uau! 1.0″, marcada pelas grandes demonstrações de poder, quando os desfiles de exércitos soviéticos e alemães, os discursos inflamados de políticos influentes, os mega-shows com milhares de espectadores e tudo o mais nos impressionava por suas dimensões no tempo e espaço definidos. Estamos abandonando o mote que abriu a idéia dos jogos olímpicos, na grécia antiga: Citius, Altius, Fortius - ”Mais rápido, mais alto, mais forte”.

Tentei encontrar outro mote, mas os meus parcos conhecimentos de latim e wikipédia não foram suficientes. Não há, ainda, nada que explique a era do “Uau! 2.0″, exceto as impressões causadas não pelo mais rápido, pelo mais alto, ou pelo mais forte, mas sim pelo menos provável, pelo comum, pelo ordinário.

A ciberdemocracia nasceu na era do Uau! 2.0. E Uau! foi justamente a impressão que eu tive durante cada um dos 58min do recém-lançado filme Us Now: A film project about the power of mass collaboration, government and the internet. Lançado gratuitamente via Internet (claro), o questionamento filosófico dos autores é simples: 

In a world in which information is like air, what happens to power?

Mas o questionamento real é outro, expresso em uma linha de texto dentro do filme, que coloca todo o poder atribuído à colaboração em massa em cheque:

So if you can create an encyclopedia with a million people who’ve never met but the quality is just as good as Britannica, what else could you create? (…) we can work togheter in ways that ask a deeper question about the role of government:

can we all govern?

Do orçamento participativo inglês a um time de futebol completamente gerenciado por seus 30.000 torcedores via internet, o filme traz alguns insights pra termos uma noção de como será a nossa vida compartilhada dentro de pouco tempo – e um final que justifica o primeiro parágrafo desse texto. Ao contrário da idéia de carros voadores e naves espaciais de altíssima complexidade, nosso futuro colaborativo será simples. Extremamente simples – e é isso que vai nos deixar impressionados.*

Recomendo muito assistirem: http://watch.usnowfilm.com/subtitled (legendas em inglês disponíveis. Não dou 1 semana pra ter em português tb!)

 

* link muito interessante com uma frase que recolhi nas minhas pesquisas pro artigo que vai ser publicado em breve. adorei poder usá-la aqui, já que lá ela não coube:

“A afirmação pode provocar risos, mas as relações públicas e a comunicação organizacional [e nesse caso também a política governamental] estão cada vez mais próximas do eletrodoméstico, que, felizmente, é a forma mais agradável de tecnologia. O seu design é bonito, sedutor, eficiente, descomplicado; as suas inúmeras funções são acionadas de forma simples e rápida; os manuais tem linguagem acessível, direcionada para o leigo. Tudo nele é concebido para o uso fácil, instantâneo e massivo. Assim são as famílias de liquidificadores, fogões, geladeiras, batedeiras de bolos, televisores, transmissores de imagem e som, entre outras.”  (Paulo Nassar. O uso das novas tecnologias de acesso ao virtual)

Como será ter um candidato a prefeito?

Não um candidato qualquer. Um candidato mesmo, daqueles que a gente torçe pra ganhar e fica triste se perder? Naquele estilo das democracias onde os partidos realmente são diferentes, em que você torce pelo seu partido,  por suas crenças e sua ideologia como se fosse o time de futebol?

Esse ano eu, pela primeira vez, tenho um candidato que realmente quero que ganhe, uma candidata, na verdade. Pena que ela concorre em SP, não em BH. Mas quem sabe um dia.

Foi essa divagação sobre as diferenças internacionais que me fez perguntar: Será que o nosso sistema político, não só o partidário, mas o sistema como um todo, o mesmo que beneficia os acordões e que hoje ainda serve muito mais como poder particular do que público… será que ele tem jeito? Ou o jeito é jogar fora e começar de novo? Porque se for, sei lá… Tenho minhas dúvidas se quero estar aqui pra ver isso.

Nesse ponto, Moscou, Havana e Brasília tem muito em comum. São três cidades onde se tentou criar do zero um novo jeito de se viver, na base da canetada. Não deu certo. O documento do comunista Lúcio Costa começa com uma cruz, de quem marca um lugar a se possuir, assim como a Geórgia agora tenta fazer com a Ossétia do Sul: “é meu, e pronto”. Brasília e os estados que, livres do jugo da URSS, correram em direção ao capitalismo, entre eles a Geórgia, só mostram juntos que re-inventar a roda não é possível. Havana espera essa mesma chance há décadas.

A questão é que as coisas só mudam de verdade quando as pessoas que vivem (e não as que comandam) resolvem que essa mudança é válida. O que nos devolve à questão das eleições: É preciso admitir que não dá pra ficar esperando a resposta cair do céu, principalmente se for na forma de canetada. Pensa bem: o iluminismo, a revolução industrial, os direitos das mulheres, dos negros e das crianças. Todos foram ratificados por canetadas, mas em todos os casos, a mudança aconteceu antes, na cabeça das pessoas, e não no sentido inverso. Na contramão temos a Venezuela, a Bolívia, o Irã, a Geórgia e os três vértices da Praça dos Três Poderes vira e mexe querendo provocar mudanças na base da canetada.

Nesse caso, se a gente correr dessa situação, acelerando em direção ao futuro (como faz o pessoal da OCAS, o Dimenstein e tantos outros bons – mas ainda poucos – exemplos), o bicho ainda pega agora, mas aos pouquinhos vai cedendo na mordida. O problema todo é que se ficar, ele come mesmo.

A frase da semana é: “Se Brasília fosse um bom lugar, o Niemeyer não morava no Rio”. Ouvida da boca da Gisele, moradora da terra dos candangos.

—–

Há algumas semanas tenho juntado pensamentos para um novo post, que hora parece que é sobre eleições, oora sobre leis, ora sobre trânsito, ora sobre isso, oora sobre aquilo. Na verdade, só o que parece é que nunca vai sair da cabeça e cair no papel (ou no bloco de notas). Em resumo, desde o último post eu ganhei um aumento, de trabalho, conheci a Serra do Cipó e Conceição do Mato Dentro, revi Diamantina, me decepcionei com Milho Verde, mas adorei o Serro. Conheci Brasília e ainda não me recuperei. Me despedi da Lisa no mínimo pelos próximos 4 meses e isso doeu. Depois fui ao Museu da Língua Portuguesa em São Paulo e aprendi um bocado de coisas legais sobre a minha língua que, quanto mais aprendo as outras, mais me orgulho de ter nascido lusófono… :)

O pensamento que há mais tempo esperava pra cair no papel era esse do prmeiro parágrafo. Calhou de juntar com a visita a Brasília, que rendeu o resto do texto.

Tenho acompanhado com atenção difusa toda a polêmica em torno da injustamente chamada lei-seca (afinal de contas, como disse o Dimenstein, ela não é seca coisa nenhuma, e a comparação com a semelhante norte-americana é injusta).

Como recém-emancipado pedestre por opção, titulado em algumas várias noites de voltar pra casa depois de ingerir álcool, ainda no carro da mamãe, e recém-inserido no mundo dos tomadores de taxi compulsivos, acho que tenho algumas opiniões para colocar aqui.

A primeira é de que beber e dirigir não combina. Ponto. Todo mundo sabe disso, até eu, você e o dono do bar.

Claro que não vou me colocar aqui como o moralista da história. Eu, como tantos, nunca fui forte o suficiente pra abdicar do álcool por causa do volante – motivo pelo qual minha transição à vida de pedestre se deu razoavelmente baseada na sensatez. E eu, como tantos, sempre dei a mesma desculpa quando flagrado por alguém (nunca por um policial) nesta situação: eu não tinha bebido tanto – o que talvez possa ser provado pelo fato de que eu nunca causei um acidente estando alcoolizado, mas já causei dois estando perfeitamente sóbrio, culpa da inexperiência e da desatenção, respectivamente.

E aí entra o ponto desse artigo. O que é beber muito? Ou o que é beber o suficiente para preferir um taxi?

Tenho visto algumas comparações entre a lei brasileira e algumas outras européias ou estadunidenses, mas nenhuma que eu tenha visto ainda levou em consideração um fator cultural importantíssimo, percebido por mim nos 2 meses em que tenho vivido com meus roomates canadenses.

Tem a ver com o que eu vou chamar de “o jeito brasileiro de beber”. O “jeito brasileiro de beber” é, até onde eu sei, uma invenção dos povos latinos, quentes, sociais. E esse “jeito”, como qualquer característica cultural, tem suas regras de funcionamento, dominadas automaticamente por qualquer nativo dessa cultura. No Brasil, beber é um ato social. Se falamos de cerveja, que é indiscutivelmente a preferência nacional, de norte a sul, beber é um ato de compartilhar. Mais ou menos como o “cachimbo da paz”, mas ao invés da erva (neste caso), usamos a bebida. Aqui, nós gostamos é de garrafas nem tão grandes como as chilenas ou uruguaias, de um litro, nem tão pequenas como as individualistas americanas e européias long-necks, que de tão longe da nossa cultura latina, ganharam espaço nos bares mas não conseguiram nem um nome aportuguesado. Combinadas com copos pequenos, as garrafas de 600ml compõem o cenário para uma troca cultural que termina no fim da noite com várias garrafas sobre a mesa, vários copos vazios ou meio-vazios, e ninguém sabendo quanto tomou. Afinal de contas, se vc tem 1 garrafa pra cada pessoa, fica fácil entender quantas você tomou. Mas dividir 36 garrafas por 17 pessoas não é conta simples (36!), nem justa com aqueles que se contentaram com menos e invariavelmente se depararam com os comentários do tipo: “se não aguenta bebe leite!”

A discussão cultural vem a reboque do ponto-cego da discussão sobre a lei. Qual a quantidade certa? Os atuais 0,2 ou os antigos 0,6? Na verdade, não importa. A menos que eu seja control-freak o suficiente pra contar quantos copos de cerveja tomo por hora afim de, no fim da jornada alcóolica deduzir, de acordo com minha altura e peso, se posso ou não dirigir.

A tolerância zero não é mais do que um reflexo do nosso jeito de usar o álcool. Se alhures pode ser mais simples medir as quantidades individuais, ou transformá-las em índices simples de cálculo (2 long-necks ou um copo de uísque), aqui não dá pra fazer isso. Porque para nós, a graça do álcool está no compartilhamento e na gradativa mudança coletiva dos que compartilham o momento; não no consumo individual, para prazer próprio.

Ao contrário do que andam dizendo por aí, a nova lei não é abusiva. Só reflete alguns anos de aprendizado em leis que pegam ou que não pegam no Brasil. Porque o medo é, sim, quando bem utilizado, uma forma lícita de se coibir abusos. Foi assim com o Cinto de Segurança, na entrada do novo código de trânsito. Chiamos todos, mas pegou ao ponto de acharmos estranhos ver alguém em um carro sem. Claro que faltam ajustes, como em todas as leis. Mas posso lançar outras perguntas: por que são as leis que têm que mudar sempre? Sempre o comportamento da polícia, da justiça, nunca o da população? Não precisa ir longe pra entender que a descrição cultural 3 parágrafos acima ilustra o conceito sempre presente de “sair pra beber” – uma marca da juventude brasileira, mas que não tem nada de nova no nosso comportamento.

Voltar atrás na decisão de apertar os cintos também no álcool será pior que reaprender alguns hábitos sociais.

(tá… a ordem não é bem essa)

Sérgio Malberger: Ricos mais ricos, pobres mais pobres

Hélio Schwartzman: Vendendo a Amazônia | Rifando a Amazônia

Soninha: Cada quadrilha no seu lugar? | Insinuação de sexo pode; nudez não

 

copiado integralmente do site do TSE:

De 3 de março a 1º de abril, quase 50 mil eleitores serão cadastrados naquele que deve se tornar um dos mais avançados e precisos bancos de dados do planeta. Por meio desse sistema, o País terá não só a votação mais informatizada como também a mais segura, já que não haverá dúvidas quanto à identidade de cada eleitor.

A expectativa é a de que, em dez anos, todos os estados do País tenham urnas com leitores biométricos.

fonte: http://www.tse.gov.br/downloads/biometria/index.htm

No ano passado, 25 mil urnas, a um custo de 890 dólares cada, foram adquiridas com o novo sistema – original de fábrica – de leitura biométrica. A quantidade é suficiente para todas as zonas eleitorais de Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Rondônia. No entanto, como estão em fase de testes, a leitura biométrica só será feita em um dos municípios de cada estado.

fonte: http://www.tse.gov.br/downloads/biometria/hora_voto.htm

Matemática elementar:

  • 25 mil urnas compradas = US$ 22.250.000.
  • 3 municípios = US$ 7.416.666 por município.
  • 50 mil eleitores = US$ 445.000 por voto.

Viu? é melhor fazer seu voto valer a pena… Ainda mais se você votar em Fátima do Sul – MS, Colorado D’Oeste – RO ou São João Batista – SC

Sou só eu ou você também acha estranho uma figura polêmica como Antônio Carlos Magalhães ser tão odiada no seu meio político e tão amada na sua terra natal?

Não sou uma pessoa indicada para falar da história do homem, que conheço muito pouco, mas que sempre me intrigou por essa dualidade. Ao mesmo tempo em que somos bombardeados com notícias de que ele era um cara duramente mau, trapaceiro, corrupto, adepto do coronelismo e da máxima “os fins justificam os meios”, somos também aturdidos pela notícia de que nada menos do que 15 mil pessoas compareceram ao velório do homem, portando faixas, fotografias e panos pretos em indicação de luto.

Como é possível ser tão bom e tão mau ao mesmo tempo? Sabe-se sim que seria ingenuidade demais julgar ACM como um “político qualquer”. Essa história tem muitas facetas. Quem era o bom, o mau e o feio em toda essa história?

na mesma jornada explicada no post abaixo, ouvi na rádio uma entrevista do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral em que ele fez amplo alarde para a necessidade de pensarmos em mudar o sistema político brasileiro para contemplar legislações estaduais independentes, assim como acontece nos EUA e Alemanha. Além disso o governador defendeu a revisão da maioridade penal e da pena máxima de 30 anos e seus mecanismos de abrandamento.

Muito bom…

Atenção cadáveres, Cabral já convocou a todos para o debate em questões fundamentais… dessa vez vocês estão ouvindo?

Na última sexta-feira, após uma semana quente falando sobre aquele crime bárbaro ocorrido no Rio de Janeiro, a rádio Band News FM se saiu com uma sacada genial para uma participação maciça e simples dos ouvintes: No começo da manhã, mandou suas redações em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Salvador fazerem uma ronda de carro pelas cidades percorrendo trechos entre 13 e 20km e contando com quantas viaturas da polícia cruzavam no caminho. Enquanto isso, convidava os ouvintes a fazerem a mesma contagem em seus trajetos durante o dia.

O resultado foi no mínimo assustador. Em 74km percorridos pelas redações em 6 das maiores cidades do país foram encontradas nada mais do que 3 viaturas de polícia, uma delas em Belo Horizonte, na região de Venda Nova. Todas as rondas foram feitas pela manhã, entre 7h e 8h e a rádio afirmava que estava recebendo centenas de e-mails e telefonemas de ouvintes, todos relatando a mesma condição de abandono da população pela polícia.

Pois bem. Eu só fiquei sabendo disso quando saí do escritório, às 17h e ouvi no rádio do carro a notícia e todo o tom desolador do jornalista Luiz Megale, sem música de fundo. Gostei da idéia e, já que ia ter um incomum e longo caminho pela frente, resolvi fazer a minha contagem também.

Resultado: durante cerca de 3h e através de 33km percorridos entre as regionais Barreiro, Centro-sul, Nordeste e Pampulha (veja mapa) eu cruzei com nada menos do que:

4 viaturas da Polícia Civil;
6 viaturas da Polícia Militar;
2 viaturas da Guarda Civil Metropolitana; e
2 viaturas da Polícia Rodoviária Federal, totalizando 14 viaturas de polícia, sem contar mais umas 7 ou 8 que estavam estacionadas em frente à delegacia do Terminal JK.

Só me pergunto quais as razões da diferença de contagem entre 8h e 17h…

ps.: o título do post é uma homenagem a um dos primeiros livros que li na vida e do qual provavelmente nunca me esquecerei. Um Cadáver Ouve Rádio, do escritor Marcos Rey, publicado pela Editora Ática na sua imortal “Coleção Vagalume”. Além de Um Cadáver Ouve Rádio, li também outros 10 livros dele na minha adolescência…

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